terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A representação dos conflitos de maltas de capoeiras na obra “O Cortiço” de Aluisio Azevedo


Iracema Santos Medrado[1]



Resumo: este presente artigo pretende analisar os conflitos entre as maltas de capoeira através dos moradores dos cortiços na região do Botafogo no Rio de Janeiro, no final do século XIX. Os personagens desse conflito são Firmo e Jerônimo cujas rivalidades amorosas apontam as ideologias dos grupos de capoeiras presentes neste local.

Palavra – chave: Capoeira - Cortiço – Imigrante – Cultura africana


Abstract: this present article analyzes the conflicts between gangs of capoeira through the slum dwellers in the region Botafogo in Rio de Janeiro, in the late nineteenth century. The characters of this conflict are Firmus and Jerome whose amorous rivalries point ideologies of groups roosts present at this location.


Keyword: Capoeira - Slum - Immigrant - African Culture


Introdução


Em meados do século XIX, a área urbana da cidade do rio de Janeiro com o crescimento dos palacetes e casas de veraneio feitas pelos fazendeiros do norte fluminense e Vale do Paraíba que haviam se enriquecido com as lavouras de café e o trabalho escravo.
Esses fazendeiros tornaram políticos e industriais associados a capitalistas ingleses e queriam residir perto do centro político do Império. Eles também construíram mansões nas áreas rurais em que residiam com a família no periodo em que as estações climáticas eram amenas. Também traziam junto seus escravos domésticos e contratavam serviços de libertos quando havia poucos cativos para a manutenção das residências.
O tipo de liberto que prestava serviços a este segmento social era descendente de antigos africanos que adentraram a província após tráfico negreiro internacional.
No passado colonial, muitos escravos foram vendidos e se concentraram na região de Minas e São Paulo para trabalharem na lavoura e na mineração. Os remanescentes desses escravos conseguiram se alforriar ao se empregar como assalariados nestas regiões até se deslocarem para a corte.
A maioria de negros livres também migrarem da região norte para o sul em busca de emprego e de melhoria das condições de vida. Vieram para se empregarem como livres num mercado que se expandia, graças a investimentos ingleses, em vários setores do comércio e da indústria, na área urbana do Rio de Janeiro.
 Sem moradia fixa, muitos desses negros invadiram terrenos e encostas de morros para construir casebres improvisados. Outros alugavam cômodos em estalagem de propriedade de imigrantes portugueses que prosperam com o tráfico negreiro e com a exploração do trabalho escravo na região.
Os casebres e as estalagens improvisadas viraram imensos cortiços que se expandia em regiões distantes do centro da cidade. Esses casebres se multiplicaram e que se transformaram em freguesias habitadas por negros e mulatos. Também esses locais muitas vezes eram utilizados como esconderijos para criminosos perseguidos pela policia e reduto de escravos que fugiam de seus senhores.
Entre estes criminosos destacamos as maltas de capoeiras que atuavam como milícias que protegiam os casebres e cortiços dessas regiões das invasões policiais. Estas regiões eram importantes distritos eleitorais, sendo disputados pelos partidos político que convencia grande massa de negros e mulatos alfabetizados a servirem como intermediários no processo eleitoral em troca de benefícios econômicos como cargos públicos ou pensões.

Amores e rivalidades no cortiço

O cortiço de propriedade do personagem João Romão descrito na obra de Aluisio Azevedo aponta alguns desses negros, pardos ou mulatos que saíram das regiões do nordeste e do Sudeste que chegaram à cidade do Rio de Janeiro em meados do século XIX.
Na Obra, “O Cortiço”, o autor faz referencia aos negros e mulatos baianos como Rita Baiana que chegaram ao Rio de Janeiro com toda uma carga cultural do norte que se misturou com a do sul representado pelo português. A mistura criou o verdadeiro brasileiro de  costumes africanos e com alma portuguesa, ao criar os ritmos musicais de origem africana.
Na verdade, o ritmo baiano foi o elemento criador do samba e do carnaval no Rio de Janeiro junto à ancestralidade moura do português.
As raízes culturais do Rio de Janeiro e da Bahia foi fruto da miscigenação do português com africano. Neste periodo, o incentivo a entrada de estrangeiros no Brasil era oriundo de um projeto por parte de imigrantistas e empresários paulistas para branquear a população parda.
Lembremos que neste periodo houve incentivo de particulares para a introdução de imigrantes como trabalhadores assalariados nas áreas rurais e urbanos para aumento da produção agrícola, mediante modernas técnicas trazidas pelos mesmos do continente europeu. O projeto de branqueamento foi um fracasso, mas o aumento da produção e da qualidade do café estimulou a entrada de imigrantes com financiamento de particulares.
Não só imigrantes italianos e alemães, mas portugueses e espanhóis foram atraídos pelo desejo de adquirir terras no Brasil e retornar ricos a Portugal.
O sonho de cada imigrante eram prosperar para voltar para sua terra natal. Mas poucos conseguiram realizar esses sonhos, pois a maioria teve que trabalhar como escravos junto com os negros nas lavouras ou fugir para se empregarem como assalariados no comércio como caixeiros ou cavoqueiros.
Aluisio Azevedo analisou, na obra “O Cortiço”, a vida de João Romão, imigrante português, que sonha em prosperar no Brasil através do comércio e da exploração do trabalho do negro e mulato, além de economizar seus contos de réis para ter lucro pois

“João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos; que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro. Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda mais com ardor, possuindo-se de delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras provações”. (AZEVEDO, 2009,p.15)

Mas a prosperidade desejada foi conseguida pela união entre ele e a escrava Bertoleza, pois contou com o apoio da ex- escrava de ganho e a astúcia de sua natureza avarenta ao estabelecer uma “venda”, construir uma estalagem e comprar uma pedreira.
O contato com o africano foi necessária para a sobrevivência dos imigrantes em um ambiente de exploração do trabalho e dos problemas relacionados ao clima tropical. Pois, a adaptação do imigrante ao solo brasileiro gerou a miscigenação e a hibridação das culturas portuguesa e africana na alimentação, vestuário e comportamento, segundo o sociólogo Gilberto Freire, em sua obra “Casa Grande e Senzala”.
Neste universo de mistura entre o imigrante e os descendentes de africanos foi se formando o caráter do brasileiro, bem como ideia de que o mestiço tinha má índole e aversão ao trabalho continuo e honesto oferecido pelo homem branco.
A desonestidade e a preguiça foram apontadas na descrição de cada morador do cortiço ao expor os vícios, os adúlteros, a avareza, a mendicância e os crimes latentes em sua ascendência escrava. Destaca-se como exemplo, a vida de Leocádia e o Bruno em contrate com a de Augusta e seu marido Alexandre para exemplificar como a vida honesta e o adultério conviviam lado a lado no mesmo espaço geográfico.
O casal Augusta e Alexandre era o modelo de virtude e honestidade dentro do cortiço. Alexandre tinha orgulho por fazer parte do corpo policial da região e ser um dos primeiros mulatos a entrar na corporação. Sua mulher Augusta era lavadeira e modelo de honestidade entre seus vizinhos.
 Já os casais Leocádia e Bruno, de descendência portuguesa, pensavam em levar a vida de forma leviana. Leocádia usava a leviandade e o adultério como forma de escapar da pobreza, enquanto que Bruno se resignava com vida simples e sem ambições, como ferreiro na pedreira de João Romão.
Outros moradores do cortiço foram analisados pelas condições das moradias e do contato com a cultura africana dos negros. Uma comunidade hibrida de brancos que se abrasileiraram em contato com os vícios dos escravos ao comentar triangulo amoroso entre Rita Baiana, Firmo e Jerônimo.
Jerônimo sucumbiu aos vícios da mulata ao abandonar a estabilidade de um lar por um amor sem futuro. Também assassinou o rival, o mulato e capoeirista Firmo, pelo amor de Rita com a ajuda de amigos portugueses.
Outro ponto destacado na obra era a tolerância e a proteção de João Romão aos seus habitantes contra as incursões da policia no local até os mesmos terem condições de defenderem o espaço contra a truculência da lei.
A truculência da ação policia eram necessária para manter a ordem nas periferias e zonas rurais, onde capoeiras e ex-escravos dominavam e intimidavam os agentes da justiça.

A ação das capoeiras no cortiço de Botafogo

A década de 1880 foi inicio o processo de emancipação escrava e da campanha abolicionista na cidade do Rio de Janeiro. O ano em que se estabeleceu o cortiço na região do Botafogo era o inicio de expansão de moradias provisórias, através da libertação de grande número de escravos pela ação abolicionista.
O perfil dos moradores dos cortiços era de libertos, mulatos e imigrantes pobres que atuavam como quitandeiros, pequenos comerciantes, caixeiros e prestadores de serviços para a elite rica da cidade. Junto aos moradores, as maltas de capoeiras rondavam os bares da região e ofereciam proteção nas festas e nos sambas nestes locais contra a ação policial.
As maltas de capoeiras atuavam desde a década de 1850 no meio urbano da cidade  Rio de janeiro.
O perfil de Firmo, no cortiço, correspondia a um membro de uma malta por ser mulato e capoeirista. Ele portava um cacete e uma navalha a qual feria inimigos e rivais no amor de Rita Baiana.
“ Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato pachola, delgado de corpo e ágil como um cabrito(....) e todo se quebrando nos seus movimentos de capoeira. (....). Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia; as vezes, porém , os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então ele fazia como naqueles últimos três meses: afogava –se numa boa pândega com a Rita Baiana”. (AZEVEDO, 2009, p. 62) 

Firmo pertencia a malta dos Guayamus, de mulatos e descendentes de africanos nascidos na região portuária da cidade do Rio de Janeiro. Esteve nas maltas desde a juventude e apoiou o partido liberal nos processos eleitorais ocorrido nas freguesias da região da cidade pois “ militara dos doze aos vinte anos em diversas maltas de capoeiras, chegara a decidir eleições nos tempos do voto direto. Deixou nome em várias freguesias e mereceu abraços, presentes e palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido”. (AZEVEDO, 2009, p. 62-63)
 O apoio da malta de Firmo aos membros do partido liberal foi motivado pela promessa de empregá-lo numa repartição pública. Com o não cumprimento da promessa do dito partido, Firmo afastou-se das maltas e do meio político. Tornou-se torneiro e se alfabetizou para se empregar numa oficina no Botafogo.
O retorno de Firmo as maltas se daria com o ódio ao português Jerônimo e a perda do amor de Rita Baiana.
Neste periodo um novo cortiço “Cabeça de Gato” foi estabelecido na freguesia por um político da Corte. As rivalidades entre estes redutos de negros e mulatos se acentuam com a chegada de novos inquilinos de outras regiões da cidade, principalmente do grupo Nagóa (libertos advindos do tráfico interprovincial) e imigrantes europeus.
A bipolaridade entre Brancos e Negros / capoeiristas e lutadores portugueses dividem os habitantes dos cortiços. Os moradores da estalagem de João Romão foram apelidados de Carapicus e o outro cortiço de “Cabeça de Gato”. Bandeiras com a cor de cada grupo foram confeccionadas para demarcar território e impedir a entrada do grupo rival. No cortiço “cabeça de Gato”, os moradores hasteiam uma bandeira amarela enquanto os Carapicus usam a de cor vermelha.
O inicio do conflito entre capoeiras dos Carapicus (Guayamus) e Cabeça de gato (Nagôa) foi interrompido pelo incêndio no cortiço de Romão. O incidente encerrou as hostilidades e decretou a união entre os grupos de capoeiras para sua reconstrução.

Conclusão

A reestruturação do cortiço que torna se estalagem trará a prosperidade a Romão após sua união em matrimonio com Zulmira, filha do comerciante Miranda. As mudanças no cortiço obrigarão os antigos moradores buscar refugio no “Cabeça de Gato”, após aumento dos preços dos alugueis, mediante influencia de Miranda sobre os assuntos financeiros de Romão.
Logo, a nova estalagem de João Romão e seu contato com a sociedade imperial, em função titulo de barão de Miranda, apontará para o aumento da riqueza dos grupos de portugueses e comerciantes locais em relação à decadência do “Cabeça de Gato”, que passará a abrigar os negros e capoeiras cujo espaço físico daria lugar aos vícios, a criminalidade e a ausência da lei e da ordem.
O fim do cortiço, para Aluizio de Azevedo, coincide com o abismo que se criará  com a diferenças cultural, política e social entre os decadentes cortiços do século XIX e o crescimento urbano na cidade do Rio de Janeiro, cujo evento culminará com as transformações que virão com o projeto de urbanização de Pereira Passos a partir de 1910 e as revoltas urbanas, alguns anos depois.


Referencias

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Ática, 2009.

AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco, o negro no imaginário das elites século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 249 p.

CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: O imaginário da República no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

HOLLOWAY, Thomas H. Policia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do séculoXIX. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas, 1997.

LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. São Paulo: Arquivo Nacional, 2003.

MOURA, Clóvis. História do Negro Brasileiro. São Paulo: Ática, 1992.

MOURA, Jair.  Evolução, apogeu e declínio da capoeiragem no Rio de Janeiro.  Cadernos Rioarte Ano I nº 3.  Rio de Janeiro: 1985

NOVAIS, Fernando A. História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

RICCI, Maria Lúcia de Souza Rangel. A Guarda Negra, um perfil de uma sociedade em crise. Campinas: AWKR, 1990.155 p.

SOARES, Carlos Eugênio L. A Guarda Negra, a capoeira no palco da política.
Disponível em: <www.mre.gov.br/dc/textos/revista14_mat6>. Acesso em: 05 fev. 2009

SOARES, Carlos Eugênio L. A negregada instituição:os capoeiras na corte imperial,1850-1890.Rio de Janeiro:Access,1994.

VIEIRA, C. R. ; ASSUNÇÃO, M. R.  Mitos, controvérsias e fatos: construindo a história da capoeira. Editado pelo Estudos Afro - Asiático (34):81-121, dezembro de 1998.




[1] Graduada em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Professora da educação básica. Contato: iracemasantos8@hotmail.com

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