Iracema Santos Medrado[1]
Resumo: este presente artigo pretende
analisar os conflitos entre as maltas de capoeira através dos moradores dos
cortiços na região do Botafogo no Rio de Janeiro, no final do século XIX. Os
personagens desse conflito são Firmo e Jerônimo cujas rivalidades amorosas
apontam as ideologias dos grupos de capoeiras presentes neste local.
Palavra – chave:
Capoeira - Cortiço – Imigrante – Cultura africana
Abstract: this present article analyzes
the conflicts between gangs of capoeira through the slum dwellers in the region
Botafogo in Rio de Janeiro, in the late nineteenth century. The characters of
this conflict are Firmus and Jerome whose amorous rivalries point ideologies of
groups roosts present at this location.
Keyword: Capoeira -
Slum - Immigrant - African Culture
Introdução
Em meados do século XIX, a área urbana da cidade do rio de Janeiro com o
crescimento dos palacetes e casas de veraneio feitas pelos fazendeiros do norte
fluminense e Vale do Paraíba que haviam se enriquecido com as lavouras de café
e o trabalho escravo.
Esses fazendeiros tornaram políticos e industriais associados a
capitalistas ingleses e queriam residir perto do centro político do Império.
Eles também construíram mansões nas áreas rurais em que residiam com a família
no periodo em que as estações climáticas eram amenas. Também traziam junto seus
escravos domésticos e contratavam serviços de libertos quando havia poucos
cativos para a manutenção das residências.
O tipo de liberto que prestava serviços a este segmento social era
descendente de antigos africanos que adentraram a província após tráfico
negreiro internacional.
No passado colonial, muitos escravos foram vendidos e se concentraram na
região de Minas e São Paulo para trabalharem na lavoura e na mineração. Os
remanescentes desses escravos conseguiram se alforriar ao se empregar como
assalariados nestas regiões até se deslocarem para a corte.
A maioria de negros livres também migrarem da região norte para o sul em
busca de emprego e de melhoria das condições de vida. Vieram para se empregarem
como livres num mercado que se expandia, graças a investimentos ingleses, em
vários setores do comércio e da indústria, na área urbana do Rio de Janeiro.
Sem moradia fixa, muitos desses
negros invadiram terrenos e encostas de morros para construir casebres
improvisados. Outros alugavam cômodos em estalagem de propriedade de imigrantes
portugueses que prosperam com o tráfico negreiro e com a exploração do trabalho
escravo na região.
Os casebres e as estalagens improvisadas viraram imensos cortiços que se
expandia em regiões distantes do centro da cidade. Esses casebres se
multiplicaram e que se transformaram em freguesias habitadas por negros e
mulatos. Também esses locais muitas vezes eram utilizados como esconderijos para
criminosos perseguidos pela policia e reduto de escravos que fugiam de seus
senhores.
Entre estes criminosos destacamos as maltas de capoeiras que atuavam como
milícias que protegiam os casebres e cortiços dessas regiões das invasões
policiais. Estas regiões eram importantes distritos eleitorais, sendo disputados
pelos partidos político que convencia grande massa de negros e mulatos alfabetizados
a servirem como intermediários no processo eleitoral em troca de benefícios
econômicos como cargos públicos ou pensões.
Amores e rivalidades no cortiço
O cortiço de propriedade do personagem João Romão descrito na obra de
Aluisio Azevedo aponta alguns desses negros, pardos ou mulatos que saíram das
regiões do nordeste e do Sudeste que chegaram à cidade do Rio de Janeiro em
meados do século XIX.
Na Obra, “O Cortiço”, o autor faz referencia aos negros e mulatos baianos
como Rita Baiana que chegaram ao Rio de Janeiro com toda uma carga cultural do
norte que se misturou com a do sul representado pelo português. A mistura criou
o verdadeiro brasileiro de costumes
africanos e com alma portuguesa, ao criar os ritmos musicais de origem africana.
Na verdade, o ritmo baiano foi o elemento criador do samba e do carnaval
no Rio de Janeiro junto à ancestralidade moura do português.
As raízes culturais do Rio de Janeiro e da Bahia foi fruto da
miscigenação do português com africano. Neste periodo, o incentivo a entrada de
estrangeiros no Brasil era oriundo de um projeto por parte de imigrantistas e
empresários paulistas para branquear a população parda.
Lembremos que neste periodo houve incentivo de particulares para a
introdução de imigrantes como trabalhadores assalariados nas áreas rurais e
urbanos para aumento da produção agrícola, mediante modernas técnicas trazidas
pelos mesmos do continente europeu. O projeto de branqueamento foi um fracasso,
mas o aumento da produção e da qualidade do café estimulou a entrada de
imigrantes com financiamento de particulares.
Não só imigrantes italianos e alemães, mas portugueses e espanhóis foram
atraídos pelo desejo de adquirir terras no Brasil e retornar ricos a Portugal.
O sonho de cada imigrante eram prosperar para voltar para sua terra
natal. Mas poucos conseguiram realizar esses sonhos, pois a maioria teve que
trabalhar como escravos junto com os negros nas lavouras ou fugir para se
empregarem como assalariados no comércio como caixeiros ou cavoqueiros.
Aluisio Azevedo analisou, na obra “O Cortiço”, a vida de João Romão,
imigrante português, que sonha em prosperar no Brasil através do comércio e da
exploração do trabalho do negro e mulato, além de economizar seus contos de
réis para ter lucro pois
“João Romão foi, dos treze aos vinte e
cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de
uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; tanto economizou
do pouco que ganhara nessa dúzia de anos; que, ao retirar-se o patrão para a
terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que
estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro. Proprietário e
estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda mais com ardor,
possuindo-se de delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras
provações”. (AZEVEDO, 2009,p.15)
Mas a prosperidade desejada foi conseguida pela união entre ele e a
escrava Bertoleza, pois contou com o apoio da ex- escrava de ganho e a astúcia
de sua natureza avarenta ao estabelecer uma “venda”, construir uma estalagem e
comprar uma pedreira.
O contato com o africano foi necessária para a sobrevivência dos
imigrantes em um ambiente de exploração do trabalho e dos problemas
relacionados ao clima tropical. Pois, a adaptação do imigrante ao solo
brasileiro gerou a miscigenação e a hibridação das culturas portuguesa e africana
na alimentação, vestuário e comportamento, segundo o sociólogo Gilberto Freire,
em sua obra “Casa Grande e Senzala”.
Neste universo de mistura entre o imigrante e os descendentes de
africanos foi se formando o caráter do brasileiro, bem como ideia de que o
mestiço tinha má índole e aversão ao trabalho continuo e honesto oferecido pelo
homem branco.
A desonestidade e a preguiça foram apontadas na descrição de cada morador
do cortiço ao expor os vícios, os adúlteros, a avareza, a mendicância e os
crimes latentes em sua ascendência escrava. Destaca-se como exemplo, a vida de
Leocádia e o Bruno em contrate com a de Augusta e seu marido Alexandre para
exemplificar como a vida honesta e o adultério conviviam lado a lado no mesmo
espaço geográfico.
O casal Augusta e Alexandre era o modelo de virtude e honestidade dentro
do cortiço. Alexandre tinha orgulho por fazer parte do corpo policial da região
e ser um dos primeiros mulatos a entrar na corporação. Sua mulher Augusta era
lavadeira e modelo de honestidade entre seus vizinhos.
Já os casais Leocádia e Bruno, de
descendência portuguesa, pensavam em levar a vida de forma leviana. Leocádia
usava a leviandade e o adultério como forma de escapar da pobreza, enquanto que
Bruno se resignava com vida simples e sem ambições, como ferreiro na pedreira
de João Romão.
Outros moradores do cortiço foram analisados pelas condições das moradias
e do contato com a cultura africana dos negros. Uma comunidade hibrida de
brancos que se abrasileiraram em contato com os vícios dos escravos ao comentar
triangulo amoroso entre Rita Baiana, Firmo e Jerônimo.
Jerônimo sucumbiu aos vícios da mulata ao abandonar a estabilidade de um
lar por um amor sem futuro. Também assassinou o rival, o mulato e capoeirista
Firmo, pelo amor de Rita com a ajuda de amigos portugueses.
Outro ponto destacado na obra era a tolerância e a proteção de João Romão
aos seus habitantes contra as incursões da policia no local até os mesmos terem
condições de defenderem o espaço contra a truculência da lei.
A truculência da ação policia eram necessária para manter a ordem nas
periferias e zonas rurais, onde capoeiras e ex-escravos dominavam e intimidavam
os agentes da justiça.
A ação das capoeiras no cortiço de Botafogo
A década de 1880 foi inicio o processo de emancipação escrava e da
campanha abolicionista na cidade do Rio de Janeiro. O ano em que se estabeleceu
o cortiço na região do Botafogo era o inicio de expansão de moradias
provisórias, através da libertação de grande número de escravos pela ação
abolicionista.
O perfil dos moradores dos cortiços era de libertos, mulatos e imigrantes
pobres que atuavam como quitandeiros, pequenos comerciantes, caixeiros e
prestadores de serviços para a elite rica da cidade. Junto aos moradores, as
maltas de capoeiras rondavam os bares da região e ofereciam proteção nas festas
e nos sambas nestes locais contra a ação policial.
As maltas de capoeiras atuavam desde a década de 1850 no meio urbano da
cidade Rio de janeiro.
O perfil de Firmo, no cortiço, correspondia a um membro de uma malta por
ser mulato e capoeirista. Ele portava um cacete e uma navalha a qual feria
inimigos e rivais no amor de Rita Baiana.
“ Firmo, o atual amante de Rita Baiana,
era um mulato pachola, delgado de corpo e ágil como um cabrito(....) e todo se
quebrando nos seus movimentos de capoeira. (....). Era oficial de torneiro,
oficial perito e vadio; ganhava uma semana para gastar num dia; as vezes, porém
, os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e então ele fazia como
naqueles últimos três meses: afogava –se numa boa pândega com a Rita Baiana”.
(AZEVEDO, 2009, p. 62)
Firmo pertencia a malta dos Guayamus, de mulatos e descendentes de
africanos nascidos na região portuária da cidade do Rio de Janeiro. Esteve nas
maltas desde a juventude e apoiou o partido liberal nos processos eleitorais
ocorrido nas freguesias da região da cidade pois “ militara dos doze aos vinte
anos em diversas maltas de capoeiras, chegara a decidir eleições nos tempos do
voto direto. Deixou nome em várias freguesias e mereceu abraços, presentes e
palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido”. (AZEVEDO, 2009,
p. 62-63)
O apoio da malta de Firmo aos
membros do partido liberal foi motivado pela promessa de empregá-lo numa
repartição pública. Com o não cumprimento da promessa do dito partido, Firmo
afastou-se das maltas e do meio político. Tornou-se torneiro e se alfabetizou
para se empregar numa oficina no Botafogo.
O retorno de Firmo as maltas se daria com o ódio ao português Jerônimo e
a perda do amor de Rita Baiana.
Neste periodo um novo cortiço “Cabeça de Gato” foi estabelecido na
freguesia por um político da Corte. As rivalidades entre estes redutos de
negros e mulatos se acentuam com a chegada de novos inquilinos de outras
regiões da cidade, principalmente do grupo Nagóa (libertos advindos do tráfico
interprovincial) e imigrantes europeus.
A bipolaridade entre Brancos e Negros / capoeiristas e lutadores
portugueses dividem os habitantes dos cortiços. Os moradores da estalagem de
João Romão foram apelidados de Carapicus e o outro cortiço de “Cabeça de Gato”.
Bandeiras com a cor de cada grupo foram confeccionadas para demarcar território
e impedir a entrada do grupo rival. No cortiço “cabeça de Gato”, os moradores
hasteiam uma bandeira amarela enquanto os Carapicus usam a de cor vermelha.
O inicio do conflito entre capoeiras dos Carapicus (Guayamus) e Cabeça de
gato (Nagôa) foi interrompido pelo incêndio no cortiço de Romão. O incidente
encerrou as hostilidades e decretou a união entre os grupos de capoeiras para sua
reconstrução.
Conclusão
A reestruturação do cortiço que torna se estalagem trará a prosperidade a
Romão após sua união em matrimonio com Zulmira, filha do comerciante Miranda.
As mudanças no cortiço obrigarão os antigos moradores buscar refugio no “Cabeça
de Gato”, após aumento dos preços dos alugueis, mediante influencia de Miranda
sobre os assuntos financeiros de Romão.
Logo, a nova estalagem de João Romão e seu contato com a sociedade imperial,
em função titulo de barão de Miranda, apontará para o aumento da riqueza dos
grupos de portugueses e comerciantes locais em relação à decadência do “Cabeça
de Gato”, que passará a abrigar os negros e capoeiras cujo espaço físico daria
lugar aos vícios, a criminalidade e a ausência da lei e da ordem.
O fim do cortiço, para Aluizio de Azevedo, coincide com o abismo que se
criará com a diferenças cultural, política
e social entre os decadentes cortiços do século XIX e o crescimento urbano na
cidade do Rio de Janeiro, cujo evento culminará com as transformações que virão
com o projeto de urbanização de Pereira Passos a partir de 1910 e as revoltas
urbanas, alguns anos depois.
Referencias
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AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco, o negro no
imaginário das elites século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
249 p.
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1990.
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LIMA, Ivana Stolze. Cores,
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RICCI, Maria
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SOARES, Carlos
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Disponível em:
<www.mre.gov.br/dc/textos/revista14_mat6>.
Acesso em: 05 fev. 2009
SOARES, Carlos
Eugênio L. A negregada instituição:os capoeiras na corte imperial,1850-1890.Rio
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VIEIRA, C. R. ;
ASSUNÇÃO, M. R. Mitos, controvérsias e fatos: construindo a
história da capoeira. Editado pelo Estudos Afro - Asiático (34):81-121,
dezembro de 1998.
[1] Graduada
em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Professora
da educação básica. Contato: iracemasantos8@hotmail.com